Quando tomamos parte do passado


Lucioles (2008), fotografia de Renata Siqueira Bueno.
I
Tomar parte do passado, isto é, tomar partido em relação a ele. No ensaio “O que significa elaborar o passado”. Jeanne Marie Gagnebin se questiona: será que estamos nos lembrando demais? Ou melhor, até que ponto esse excesso de lembrança se converte ou não em conhecimento sobre o passado? Essa questão já estava em uma das verdades intempestivas de Nietzsche: Sobre a utilidade e a desvantagem da história para a vida. O filósofo identifica, já no final do século XIX, como a idolatria ao passado paralisava o presente. Por isso, Nietzsche defende a capacidade do esquecimento como forma de libertar nossa força vital desse enorme peso para que possamos seguir em frente.
Porém, há diferentes formas de esquecimento. O esquecer natural e necessário para a vida. A vontade e o desejo de se esquecer o passado – o que é, sem dúvida, um direito. Mas também maneiras negativas de esquecimento: o não saber, saber mas não querer saber, fazer de conta que não se sabe, denegar, recalcar. Paradoxalmente, lembrar demais também não pode ser uma forma de se esquecer? Gagnebin nos atenta aos riscos desse excesso de memória: a monumentalização e a instrumentalização do passado, a transformação do passado em um mito ou tabu, o presente esterilizado por essa relação de culto com o que foi. Devemos, então, tentar elaborar o passado, isto é, compreendê-lo para além dos papéis de vítimas e algozes, ressentimento e queixa. Precisamos continuar a viver. Mas para isso é preciso coragem.
II
Tomar parte do passado, portanto, é assumir uma responsabilidade com o então. É não deixar para lá, como quem diz “o que passou, passou”. Mas também não lembrar com ingenuidade, ou falsa ingenuidade, como se o passado estivesse ali, em carne e osso, dentro do que se escreve sobre ele, em pastas e gavetas e hds, nos quadros nas paredes e nos incontáveis memoriais, e não fosse na verdade uma construção que se faz e se renova constantemente no presente.
Lembrar é agir no presente. Mas também agir sobre o presente. Já discutimos muito em nossos encontros sobre a experiência traumática, sobre essa insistência do passado sofrido que retorna posteriormente, e, por isso, é elaborado sempre de maneira atrasada. Presenciamos diariamente horrores indizíveis: Gaza, Líbano, Ucrânia, Sudão. Só compreenderemos essa dor quando ela se tornar um passado distante, quando já for tarde demais, e restar para nós apenas nos lembrar com culpa e vergonha? Lembrar não significa apenas evocar um passado distante, mas também pensar no que está acontecendo agora: me lembrei de Gaza, do sofrimento diário, de ontem, de hoje e de amanhã – decidi, portanto, me lembrar, pensar em Gaza.
Tomar parte do passado é tomarmos para nós nossa devida parte, nosso devido compromisso em relação ao passado. Em outras palavras: participar (do latim, participare, que significa literalmente tomar parte de algo). Todos nós, os vivos, somos responsáveis por lembrar – lembrar para que não desapareça, ou para que o passado não se repita jamais.
III
Lutamos contra o esquecimento. Lembrar nunca é desinteressado, natural: é correr em sentido oposto à direção do vento, ao inevitável desaparecimento. Tomar parte do passado é salvar do esquecimento uma parte do todo, capturar uma partícula, um pedaço pequeno do que foi - luz fraca e sensível, incapaz de iluminar todo o caminho, mas suficiente para nos salvar da completa escuridão.
Há certo momento em nossas vidas que tudo que um dia foi o nosso mundo parece estar por um triz. E nós olhamos ao redor, para os outros que já viveram exatamente esse momento e seguiram em frente, e passamos a compreender melhor por que as lágrimas não vêm mais em torrentes, por que de tanta resignação, que achávamos ser força, mas é outra coisa, por que os olhares que por vezes se perdem nos cantos da parede, na TV desligada, no horizonte da janela, buscando ali o que já não está mais. E nos agarramos ao que podemos desse mundo perdido, nos agarramos com toda a força ao que restou dele, não para impedir que deixe de existir, mas para não permitir que deixe de existir como se nunca tivesse existido!
Penso que parte desse mundo persiste dentro de nós, nos nossos gestos, em quem somos. É nossa responsabilidade continuar a viver, para preservar se
us pedaços com generosidade: eles não nos pertencem, afinal de contas, nós apenas os guardamos. Tomar parte do passado é tomar posição em favor da vida, não apenas por nós, mas também pelos mortos, que já não podem mais fazê-lo.
Referências: GAGNEBIN, Jeanne Marie. O que significa elaborar o passado? In. Lembrar escrever esquecer . São Paulo: Editora 34, 2006.
NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2014.
Escrito por Raphael Domingos



Comentários