top of page

Além da Fantasia: Simbolismos em A Viagem de Chihiro

  • Foto do escritor: petfacomufjf
    petfacomufjf
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 8 horas

A Viagem de Chihiro é um longa-metragem do Studio Ghibli, lançado em 2001, escrito e dirigido por Hayao Miyazaki. O filme conquistou o Oscar de 2003, tornando-se a primeira produção do estúdio a ganhar o prêmio de melhor animação. Aclamada pela crítica internacional, a obra é frequentemente citada como um dos melhores filmes da década de 2000 e uma das maiores animações de todos os tempos. Além disso, por muitos anos, A Viagem de Chihiro foi o filme de maior bilheteria da história do Japão, superando até grandes produções de Hollywood.


O longa conta a história de Chihiro, uma menina de 10 anos que está se mudando com seus pais. No caminho para a nova casa, eles encontram um túnel e decidem explorá-lo, apesar da relutância da garota. Ao atravessá-lo, descobrem um antigo parque temático e começam a conhecer o lugar. Quando anoitece, Chihiro percebe que os pais se transformaram em porcos após comerem a comida do local e vê vários espíritos chegando. Assim, ela se vê em um mundo de fantasia, povoado por seres sobrenaturais, e sua missão passa a ser salvar os pais e encontrar o caminho de volta para casa.


Muito além de uma fantasia e de um filme com belíssima inventividade sonora e visual, A Viagem de Chihiro aborda temas importantes e complexos, como a questão da identidade e o processo de amadurecimento, conduzindo o espectador por uma jornada de autorreflexão repleta de metáforas e simbologias. Nesse sentido, os aspectos apresentados serão analisados a seguir, com o objetivo de compreender as principais temáticas, simbologias e críticas presentes na obra.


1- A jornada de amadurecimento

No filme, há a ideia de um rito de passagem que se enquadra no gênero coming-of-age, que retrata histórias de amadurecimento. São obras que mostram períodos de transição e mudança e exploram a questão da identidade. A Viagem de Chihiro busca aproximar o público da forma como Chihiro vivencia esse momento por meio da construção da personagem. Chihiro é uma garota de dez anos que está passando por uma fase de transição: tanto da infância para a adolescência quanto por uma mudança espacial, que a obriga a deixar sua vida para trás e começar outra. Assim, ela precisa aprender a ser corajosa e a lidar com essas transformações.


O filme começa, literalmente, em um espaço de transição: dentro de um carro, entre um lugar e outro. A viagem mostra que esse percurso nem sempre é linear e pode trazer sobressaltos e imprevistos. O próprio título, “A Viagem de Chihiro”, pode ser lido por duas perspectivas: por um lado, fala desse deslocamento físico, dessa passagem de um lugar a outro; por outro, da viagem subjetiva, da jornada pessoal.


Esse percurso de Chihiro se assemelha ao de outras histórias, como Alice no País das Maravilhas, que também representa a transição da infância para a vida adulta em meio ao fantástico, ou mesmo O Mágico de Oz, em que Dorothy se vê imersa em um contexto mágico e faz de tudo para voltar à vida real.



2- A busca pela identidade

A questão da identidade e do nome está intimamente ligada. No início do filme, quando Chihiro pede um trabalho a Yubaba, a bruxa rouba seu nome para controlá-la, transformando-a em Sen. O nome de cada um carrega sua história, seu passado e seus traumas; ao entrarem nesse novo mundo, tudo isso é deixado para trás.


Em japonês, os ideogramas (kanji) podem ser lidos de diferentes formas. Para formar “Chihiro”, utiliza-se os kanji das palavras “mil” e “procurar”. Quando Yubaba aceita que a garota trabalhe na Casa de Banho, ela declara que o nome de Chihiro lhe pertence e diz que a garota passará a se chamar Sen (“mil”, em japonês); ou seja, retira o kanji de “procurar” e deixa apenas o que representa um número. Assim, Chihiro se torna apenas mais uma na multidão de trabalhadores da Casa de Banho, com sua identidade apagada. Ela, então, inicia uma jornada de busca e redescoberta da própria identidade por meio da memória de seu nome original.



3- Amor companheiro

Nos filmes de Hayao, há uma característica muito marcante: a presença de personagens femininas. Essas personagens costumam ser protagonistas, independentes e determinadas. Chihiro não é diferente. No filme, ela se mostra corajosa e autônoma, mesmo tendo Haku ao seu lado. O papel de Haku e o vínculo entre eles, também foge do padrão tradicional dos contos de fadas. Ele não é o rapaz que surge para salvar a moça quando ela está em risco. Hayao diz o seguinte:


“Muitos dos meus filmes têm fortes lideranças femininas — garotas valentes e autossuficientes que não pensam duas vezes em lutar pelo que acreditam com todo seu coração. Elas precisarão de um amigo, ou de um apoio, mas nunca um salvador. Qualquer mulher é tão capaz de ser um herói como um homem.” (Hayao Miyazaki apud TSUKADA, Julie. Simbologia e identidade em A Viagem de Chihiro. Valkirias, 2019. Disponível em:https://valkirias.com.br/simbologia-e-identidade-em-a-viagem-de-chihiro/)


Sendo assim, Haku não está ali para ser um par romântico nem o salvador de Chihiro. O sentimento entre eles se manifesta como apoio e companheirismo: cuidam um do outro, se ajudam e se inspiram a viver e a superar dificuldades. Esse é o amor para Miyazaki.



4- Crítica ao capitalismo

Outro tema importante retratado no filme é a forte crítica ao capitalismo, à ganância e ao consumismo, presentes em várias cenas. Um dos primeiros exemplos aparece logo no início, com a gula dos pais de Chihiro: eles comem tanto que se transformam em porcos, animais sem identidade, enquanto Chihiro resiste à tentação e se mantém humana. Ao longo do filme, ela é colocada diversas vezes em contraponto a essas situações.


Uma característica que atmbém evidencia essa crítica é a forma como a Casa de Banho funciona. Yubaba representa a patroa que quer sempre lucrar às custas de seus funcionários, que são uniformizados e tratados de maneira igual, servindo apenas para gerar cada vez mais lucro, sem descanso, algo típico do sistema capitalista.


O espírito fedorento é outro exemplo: ele surge grande e gosmento, até descobrirem que toda aquela gosma é, na verdade, um acúmulo de coisas que ele “consumiu”, como eletrodomésticos e bicicletas. Depois de se livrar disso, o espírito deixa de ser gosmento e volta à sua forma original, evidenciando o consumismo e seus males.


Além disso, há a cena do Sem Rosto, quando ele entra e começa a oferecer ouro aos funcionários da Casa de Banho de Yubaba, que, desesperadamente, imploram por um pouco da riqueza. Chihiro, por sua vez, recusa o ouro e diz que não precisa disso, sendo justamente o contraponto à ganância pelo dinheiro. Por fim, vemos que o Sem Rosto se torna melhor e mais gentil quando está fora da Casa de Banho, como se aquele ambiente ganancioso e lucrativo o afetasse, assim como, hoje, vemos cada vez mais seres humanos sendo impactados pela lógica capitalista e pela ganância das grandes empresas.



5- Crítica à poluição

Uma crítica importante presente no filme é a poluição causada pelos seres humanos, cada vez mais recorrente nos dias atuais. O espírito fedorento que chega à Casa de Banho enorme e gosmento é, na verdade, o espírito de um rio tomado por lixo; seu estado é resultado do acúmulo de resíduos descartados pelas pessoas em suas águas.



6- Sem rosto

Ao longo do filme, o Sem Rosto aparece diversas vezes, e é possível perceber que sua principal característica é se metamorfosear, ou seja, mudar a forma como age de acordo com o ambiente em que está e com a maneira como é tratado. Quando recebe gentileza de Chihiro, revela-se um espírito calmo e gentil; porém, ao entrar na Casa de Banho e conviver com pessoas gananciosas, torna-se ganancioso e descontrolado. Ele também imita as vozes dos personagens que consome e adquire características humanas, como cabelo e pernas. Assim, representa a nossa tendência de nos transformarmos a partir do que absorvemos e do meio em que vivemos, como diz a famosa frase: o ser humano é produto do meio.



Portanto, A Viagem de Chihiro é uma obra que se destaca não apenas por seus aspectos técnicos, visuais e sonoros, que constroem um universo fantástico rico e envolvente, mas também pelos significados presentes em sua narrativa. Por meio de suas personagens, cenários e acontecimentos, o filme reúne simbologias e críticas sobre identidade, amadurecimento, consumismo, capitalismo, poluição e as influências do meio em que vivemos. Assim, por trás de sua fantasia e beleza estética, encontra-se uma obra complexa, capaz de provocar diferentes reflexões e interpretações.


Escrito por Ana Elisa Sartori Lemos de Oliveira







Posts recentes

Ver tudo
Fácil

Por: Clarisse Benony Fácil. Do dicionário: que se executa ou obtém sem dificuldade . Quando somos crianças, fácil pode ser andar de bicicleta, escalar uma árvore, se equilibrar na calçada. Pé por pé.

 
 
 

Comentários


2026 PET-FACOM - UFJF
  • Instagram
  • Facebook
  • X
  • Youtube
bottom of page