O que significa elaborar o passado?

Raphael Domingos de Ávila
“O que significa elaborar o passado?” Esta pergunta dá título a um ensaio da pesquisadora da memória Jeanne Marie Gagnebin (2006), no qual é questionado até que ponto o excesso de lembrança se converte em conhecimento sobre o passado. A partir do boom dos estudos sobre memória, nos anos 1970 e 1980, preservar a lembrança, salvá-la do desaparecimento, a busca por resgatar rastros do passado – palavras, imagens, tradições – tornou-se não apenas uma “tendência acadêmica”, mas também um dever ético e uma preocupação cultural e política central. Andreas Huyssen (2014) chama atenção para como esse fenômeno contrasta completamente com a preocupação com o futuro, que marcou o pensamento modernista do século XX. Podem as rupturas ocorridas no século passado, as enormes transformações sociais e todas as feridas deixadas por sucessivas catástrofes, terem destruído as projeções de futuro e tornado o presente um terreno acidentado? O próprio futuro modernista se tornou démodé. Nesse contexto, a lembrança pessoal, os aspectos da vida íntima e os sentimentos passaram a ser vistos como as pistas mais quentes na reconstituição do passado: o imperativo da memória é também o do sujeito.
Se por um lado, há algo de positivo nessa viragem do pensamento em direção à memória, ao sujeito, às pequenas frações da história, por outro, ao se tornar um consenso acrítico, revela-se também uma parte negativa. Os usos e abusos da memória por grupos políticos, a “fé cega” sobre a lembrança pessoal e a museificação do passado são alguns desses problemas. No final das contas, acumular lembranças não é uma garantia de memória – por vezes, pelo contrário, resulta em esquecimento. Como afirma Walter Benjamin (2016), a memória não são lembranças da consciência ou uma somatória de dados do passado; a memória é um trabalho de, uma ação, são os modos como damos significado ao passado ao ativá-lo no presente.
Nesse sentido, o trauma se revela um desafio para fazer essa passagem do passado para o presente. O trauma é definido pela psicanálise como uma “ferida na memória”: o evento traumático, sem conseguir ser conectado aos acontecimentos correntes na narrativa que todos fazem sobre a própria vida, torna-se isolado, um corpo estranho da memória. Resta ao sujeito traumatizado repetir esse evento, incessantemente. Entender o trauma é buscar interromper esse ciclo de repetições, conectando o trauma à vida, fazendo-o um acontecimento reconhecível à memória. Nisso, a comunicação: como tornar “comum” e, portanto, comunicável uma experiência singular como o trauma? O modo como tornamos nossas experiências comuns são através das palavras, dos símbolos, da representação. Se o trauma é uma ruptura das representações habituais, elaborá-lo quer dizer encontrar outros modos de representá-lo. Nisso, o estético: a linguagem, que se torce e retorce no presente, e a imaginação, que preenchem essa lacuna temporal deixada pelo trauma. Voltando à pergunta inicial, elaborar o passado significa, portanto, torná-lo comunicável, compreendê-lo, para assim fazer a travessia necessária para se continuar vivendo.
Este módulo propõe uma abordagem interdisciplinar entre arte, comunicação e memória. Ao longo de encontros semanais, são discutidos textos teóricos que tratam das questões apresentadas acima, guiados sempre por produções culturais diversas, como filmes, séries, literatura e histórias em quadrinhos. Mais do que apontar como essas produções tematizam o trauma, o intuito é refletir em conjunto sobre as maneiras pelas quais o trauma é formalizado por elas, ou seja, como o passado traumático é elaborado na obra em si, em sua materialidade.
Ementa
A memória e a subjetividade entendidas enquanto instâncias mediadas por dispositivos culturais e simbólicos. A relação entre estética e inscrições de memória, visibilidade de sujeitos e reconfiguração de limites. O que é o trauma? Como a arte pode comunicar experiências traumáticas? Qual a relação entre estética e política, nesse sentido? O que é "subjetividade" e quais seus significados na contemporaneidade? Como a arte e a comunicação podem desestabilizar regimes de memória/esquecimento?
Referências
AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha (Homo Sacer III). São Paulo: Boitempo, 2008. Trad.: Selvino J.Assmann.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaio sobre literatura e história da cultura São Paulo: Editora Brasiliense, 2016.
ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: Formas e transformações da memória cultural. São Paulo: Editora Unicamp, 3a ed., 2021. Trad.: Paulo Soethe.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. São Paulo: Editora 34, 2020. Trad.: Vanessa Brito e João Pedro Cachopo.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Remontagens do tempo sofrido: o olho da história, 2. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. Trad.: Vera Casa Nova e Márcia Arbex.
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo, Editora 34, 2006
HUYSSEN, Andreas. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2014.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 10, 1993. Trad.: Yara Khoury.
RANCIÈRE, Jacques. As margens da ficção. São Paulo: Editora 34, 2021b.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. Estética e Política. São Paulo: Editora 34, 2009.
SACRAMENTO, Igor. A era do testemunho: uma história do presente. Revista Brasileira de História da Mídia, v. 7, n. 1, 2018.
SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das letras, 2015.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. A história como trauma, in: M. Seligmann-Silva e A. Nestrovski (org.) Catástrofe e Representação. São Paulo: Escuta, 2000, pp. 73-98.
WIERVIOKA, Anette. The era of the witness. Nova Iorque, Estados Unidos: Cornell University Press, 2006


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