O professor admirador do silêncio

Atualizado: há 11 minutos

Em algum ponto entre a abstração da filosofia de Kant e o realismo manso de um curta-metragem iraniano, encontra-se um o homem de meia idade e cabelos levemente grisalhos. Entre os muitos anseios que vagam por Nilson Alvarenga há o de “trabalhar calado”, o que soa como uma ironia para um homem que constrói sua vida na fala, como professor. A contradição do docente que precisa falar para viver, mas que anseia pelo silêncio de um montador ou de um músico, é o ponto nevrálgico de sua existência. Em um mundo acadêmico que muitas vezes o sufocou com a aridez da filosofia da linguagem, foi o cinema, campo que nunca deveria ter se afastado, que o resgatou.
Nilson cresceu em Campo Belo, “lá no meio do mato”, como gosta de dizer, em um lar sem biblioteca — algo que molda tantos intelectuais. Sua família possui origem simples e em sua casa havia apenas poucos livros “perdidos” de Moral e Cívica, que ele se lembra de ficar “fuxicando”. O contato direto com a literatura iniciou-se na escola, onde foi estimulado por uma professora de português que achava que ele escrevia bem, algo que o fez se sentir bem, apesar do ciúme dos colegas.
Seu pai ouvia o sertanejo de raiz e o primeiro contato que teve com a arte veio pelo rádio, quando , ainda garoto, ele ouvia Belchior e Zé Ramalho sem saber quem eram. A música foi um fio condutor nas suas escolhas desde garoto. Mas a memória mais vívida de sua infância, a primeira imagem que o impactou, é um prenúncio sombrio do que viria a ser seu ofício: as imagens de Jesus carregando a cruz na TV durante a Semana Santa. Aquilo, ele lembra, era como um filme de terror, impregnando-lhe a cabeça, deixando-o com medo. “Eu ficava com medo, mas não conseguia parar de olhar”, relembra.
Na adolescência, um amigo do irmão, que tinha o privilégio de um videocassete em casa, enquanto Nilson não tinha, abriu-lhe as portas de um mundo mais sofisticado: Stanley Kubrick. Assistir “Laranja Mecânica” foi um choque, algo que ele considerou "bom, cara, de filme". Porém, a epifania veio com “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Ele viu que era o mesmo nome do diretor. O filme ia começar à meia-noite, ele chamou o irmão, estava doido para ver. Nilson, extasiado no meio do filme, olhou para o lado e descobriu seu irmão roncando no sofá. "Como é que ele não está gostando de ver isso?". Aos 15 anos, a arte, para ele, não era uma opção, mas uma vocação.
Sua jornada acadêmica, surpreendentemente, começou em uma tentativa fracassada de Odontologia, resultado de uma expectativa familiar. O caminho se abriu para a Comunicação Social, influenciado por um músico de Heavy Metal. Ele tinha um amigo que lhe sugeriu o curso pois um dos integrantes da banda Dorsal Atlântica, que tinha letras que o fascinavam, era formado em Comunicação. "Eu quero fazer isso, então". O interesse nunca foi o jornalismo stricto sensu, mas a área como uma abertura para o campo das artes.
O professor iniciou a graduação em 1992 na Universidade Federal de Juiz de Fora, onde hoje leciona. É nesse momento que a filosofia adentra sua vida. Quando chegou em Juiz de Fora, ele teve contato com os livros, lendo Freud e Kant ao mesmo tempo, sem entender muito, mas encantado com a abstração. Foi atrás de Schopenhauer e Nietzsche. A atração pela história era forte. Em seus anos como discente, fez parte do Programa de Educação Tutorial (PET), o mesmo programa que anos mais tarde se tornou tutor. Em seu tempo de petiano, sua tutora, Laura, viu nele a "cabeça" certa e o aconselhou a fazer Filosofia. Essa semente o levou ao Mestrado e ao Doutorado na área.
A bifurcação: do abstrato ao visual
O grande momento de bifurcação da sua vida veio durante o Doutorado em Filosofia da Linguagem, na UERJ, uma área "árida" que o angustiava profundamente. Ele começou a dar aula de especialização em Filosofia na PUC do Rio e não estava satisfeito, sentia que não estava bem com aquilo. Estava prestes a desistir da carreira de professor. Foi o convite para dar aula de Introdução ao Cinema, uma disciplina que surgiu na Comunicação, antes do novo currículo, que o resgatou. O concurso lhe abriu um campo novo, não só de docência, mas de produção, começando a “cometer” curtas-metragens. O cinema o deixou mais sossegado em relação às angústias que tinha como estudante e futuro professor de filosofia.
A sua docência na Comunicação Social é, invariavelmente, moldada pela sua formação filosófica. Seu olhar busca o osso, o conceito de base, o fundamento. Para os alunos de edição, Nilson destila o processo a duas essências: ordenar os planos e dar ritmo. A ordenação, ele explica, constrói a história e a narrativa na cabeça do espectador; o ritmo conduz o espectador pelas emoções. A filosofia, neste caso, é a redução ao essencial. O mesmo se aplica à Direção de Fotografia: câmera e luz, apenas. Essa busca pelo fundamento se estende à abordagem da câmera e do olhar. Ele é um discípulo de Gilles Deleuze, um filósofo, e não um crítico de cinema, que olhou para a sétima arte: a arte não é filosófica pelos temas, mas pela abordagem da imagem, pelo modo como ela opera na mente do espectador. A chave, para Nilson, é a tese de Deleuze de que o cinema inventa conceitos via imagens e sons, que fazem o pensamento funcionar. Toda essa abordagem é intrinsecamente filosófica.
Em Immanuel Kant, Nilson encontra a ligação crucial entre sensorialidade e pensamento. Citando a Crítica da Faculdade do Juízo, ele argumenta que a estética é aquilo que afeta os sentidos, e há um pensamento específico no modo como se experiencia o mundo sensivelmente. Essa linha de pensamento, que é seguida por Nietzsche, Espinosa, Deleuze e Jacques Rancière, afirma que as sensações estão carregadas de pensamentos, e vice-versa.
O mestre dos encontros silenciosos
Seu cinema ideal é um reflexo direto dessa filosofia de sutilezas. Nilson é atraído por um cinema de narrativa mínima e de personagens complexos, que se transformam no encontro com o outro. Não se trata de resolver uma situação, mas de deixar que o encontro permeabilize e se alastre na vida do personagem como um evento psicológico. É um cinema de fala mansa, que tem afinidade com o realismo literário de autores como Flaubert, Balzac, Stendhal e Dostoiévski, ou, no cinema, com o italiano Rossellini (“Alemanha Ano Zero” é um de seus favoritos) e o japonês Yasujiro Ozu. Nilson até mesmo compara o poeta americano Raymond Carver e o controverso Charles Bukowski, sobretudo nos contos e poemas, a essa linhagem do realismo manso, que fala baixo, sem arroubos. "Parece que não está falando nada, mas, pô, está falando de uma forma profunda um monte de coisa, sabe? Eu gosto, me atrai essa coisa".
Seu trabalho mais marcante, o curta-metragem "Sugestão" , nasceu de um exercício pedagógico. A premissa era simples: como operar a ideia de sugestão, onde algo está sempre sugerido, mas nunca dito. A experiência foi uma união de prática de cinema e aprendizado mútuo com quatro alunos, uma co-criação em que o professor, que precisa falar, encontrou um modo de fazer silêncio.
Duas décadas no Primeiro Plano
Há mais de 20 anos, Nilson dedica-se ao festival Primeiro Plano. Um festival de cinema de Juiz de Fora que exibe e premia curtas-metragens, especialmente de cineastas estreantes da Zona da Mata mineira. Ele começou em 2004, dois anos após a primeira edição, procurando a organização do evento e dizendo que queria participar. Ele trabalhou com a coordenação de mídia, divulgação e arte gráfica até 2014/2015 e depois, assumiu a coordenação das oficinas do festival. Ele também atua como mediador institucional e proponente do evento para apoios da UFJF, como funcionário docente da universidade.
Ele viu o festival passar por duas grandes transformações: a tecnológica e a temática. A tecnológica o levou da exibição de filmes em super 16 e 35mm, com cópias em VHS para curadoria, à chegada dos DVDs e, finalmente, à era digital com links e Google Drive. A transformação temática, que se intensificou a partir de 2016, foi a emergência das questões de gênero, raça e uma juventude que se transformava. Por ser um festival de estreantes, o Primeiro Plano manifestava uma nova linha de se pensar o cinema, um espaço político e de fala.
O impacto do festival em sua vida é a prática cinematográfica que ele absorve a cada ano, vendo o que os jovens têm produzido. Isso o ajuda diretamente em suas aulas, dando-lhe uma visão da do ofício do cinema que não é distribuída e que ele pode levar aos alunos. As oficinas, espaços de aprendizado não institucionalizados com profissionais da área, também o ajudam a perceber diferentes modos de pedagogia. Para Nilson, suas aulas convergem em dois pontos: a da prática que ele adquire no festival e a da filosofia. O que ele traz da academia (filosofia) se junta ao que ele traz dessa experiência na prática cinematográfica
O desejo inconfessável do silêncio
Apesar da satisfação na docência e da alegria em trabalhar com os alunos, há um desejo persistente. Nilson brinca que, uma vez que se torna professor universitário, a musculatura fica forte para umas coisas e fraquinha para outras. Ele se pergunta, em uma bifurcação hipotética, se não teria sido um montador ou músico. A ironia do professor que fala é que, às vezes, a melhor oratória é aquela que, estranhamente, consegue criar um espaço de silêncio para o pensamento.
Ele se lembra de uma intuição que teve ao assistir a um show da banda portuguesa Madredeus, um World Music. Vendo o guitarrista tocando, Nilson conta que se lembra de ter pensado: "Cara, deve ser bom demais trabalhar calado". A intuição era a de que, falando, ele também poderia encontrar um espaço de silêncio. É falando, ao debater e conversar, que ele se remete àquele espaço de silêncio do músico. Esse silêncio é quando ele consegue ouvir, pensar e intuir uma ideia nova, que ele traz na hora para a sala de aula.
Curiosamente, a entrevista do professor admirador do silêncio é finalizada com despencar estrondoso de um quadro na sala do PET, que gera um silêncio ensurdecedor no ambiente. O professor Nilson Alvarenga, o homem que queria trabalhar calado, encontrou na arte da docência, na filosofia e no cinema a capacidade de fazer com que a imagem e o conceito falem, mas em voz baixa, profundamente.
Escrito por Maria Fernanda de Souza Silva




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