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As cascas que carregamos

Foto do escritor: petfacomufjf
petfacomufjf
há 2 dias
5 min de leitura

Relato do encontro — módulo Comunicação e arte na elaboração do passado traumático — PET FACOM

Quando era criança, sempre tive curiosidade de saber mais sobre meus avós e membros da minha família que eu não tive oportunidade de conhecer. Eu sempre fui uma criança muito curiosa e gostava de ouvir as histórias de quando meus pais também eram pequenos e como o mundo era diferente. Uma vez, entretanto, perguntei a minha mãe como era a relação da minha avó com meu falecido avô, foi aí que ela respondeu "Filho, o passado é melhor a gente deixar quieto". Na hora não entendi muito bem — como assim deixar quieto? Aprender mais sobre a história de minha família não seria uma coisa boa?


Depois de amadurecer, e de novas leituras e visões que tive contato por conta do módulo, acho que entendo um pouco melhor a frase da minha mãe, ainda que continue discordando dela. Como diria Jeanne Marie Gagnebin, no texto "O que significa elaborar o passado?", há um esquecimento necessário, um direito de não revirar a ferida — mas há também o esquecimento que é ressentimento, o “saber, mas não querer saber", o fazer de conta. Lembrei, lendo isso, de Freud, que em seu ensaio sobre o romance Gradiva compara o trabalho de reviver uma lembrança soterrada ao de um arqueólogo escavando Pompeia: os corpos ali ficaram estranhamente preservados justamente por terem sido enterrados vivos pela lava do Vesúvio, e desenterrá-los é necessário para se conhecer o que houve — mas também reabre uma ferida que o próprio soterramento, a seu modo cruel, tinha mantido calada. Talvez minha mãe fosse a lava que insiste em proteger, e eu quem insiste em escavar. Não sei em qual desses lugares ela se colocava naquele dia. Talvez ela mesma não saiba. O que sei é que decidi, aos poucos, que prefiro tomar parte do passado, mesmo que doa, a deixá-lo intocado numa gaveta — ou soterrado, como Pompeia.


Penso muito em Art, de Maus, e na culpa de carregar um trauma que não viveu com o próprio corpo, mas que herdou pela fala, pelos silêncios e pelos gestos do pai. Eu não tenho um pai sobrevivente de Auschwitz, mas tenho uma mãe que escolhe não se lembrar, e talvez isso já seja suficiente para entender por dentro o que é habitar a lacuna que alguém deixou aberta por amor, por medo, ou por proteção. A pós-memória não exige um campo de concentração para existir; ela existe em toda casa em que uma pergunta é respondida com silêncio.


E talvez seja esse o ponto: a memória não é algo espontâneo, fixo, indivisível, inalterável e estático — ela é um processo, uma construção, uma elaboração, como o próprio título do ensaio de Gagnebin já sugere. Penso nisso como o trabalho de um carpinteiro. A madeira é a matéria-prima, é a nossa experiência bruta, inteira, cheia de nós e rachaduras — mas ninguém guarda o tronco inteiro dentro de casa. Escolhemos um pedaço, descartamos o resto, cortamos, lixamos, pintamos, enfeitamos, até que aquilo se torne uma peça, um brinquedo, algo que possa ser exibido, contado, e às vezes até vendido. Art faz exatamente isso com a história do pai: recorta, desenha, decide o que aparece no quadrinho e o que fica de fora. Mas é preciso lembrar que toda peça de madeira, depois de talhada, carrega só uma parte da árvore que já foi — e que alguém, em algum momento, escolheu qual parte seria essa.


Foi pensando nisso que assisti Valsa com Bashir de outro jeito. O filme escolhe a animação, talvez, porque a memória de Folman também é uma reconstrução manca, feita de retalhos, incapaz de tocar o real diretamente — só sua sombra desenhada. E ali está o soldado que também sofre, que também é atravessado pelo horror da guerra em que participou. Isso me incomodou. Será que o algoz também pode ser vítima? Fui atrás do ensaio de Slavoj Žižek, "A Soft Focus on War", e encontrei ali uma resposta que não é bem uma resposta: como diria o próprio Žižek, sim, o soldado é humano, sofre, se traumatiza — mas essa humanização é também uma cortina. Ao nos convidar a sentir o medo do soldado americano em Um Time de Elite ou do soldado israelense em Líbano, o cinema nos afasta da pergunta mais incômoda: por que você está fazendo isso? A dor de quem aperta o gatilho é real, mas não deveria apagar a pergunta sobre o gatilho.


Aqui chego a algo que meu colega de módulo trouxe outro dia: a imagem da casca. Uma casca é o que cresce sobre uma ferida para protegê-la enquanto cicatriza — mas também pode ser o que a fecha para sempre, impedindo que qualquer coisa nova entre ou saia dali. Sei que escavar o passado, como o arqueólogo de Freud, já serviu à justiça: no Julgamento de Nuremberg, foi decisivo reviver o que tinha acontecido, e o testemunho dos próprios sobreviventes judeus, falando em primeira pessoa sobre o que viveram, ajudou o mundo a não poder mais fingir que não sabia. Ali, desenterrar doeu, mas foi necessário. Penso, porém, que fizemos depois outra coisa com essa memória tão duramente conquistada: transformamos o Holocausto numa casca sagrada, intocável. O problema é quando essa mesma casca, endurecida, se torna blindagem — quando estados modernos se utilizam dessa elaboração de memória para se colocarem como "eternas vítimas" e justificarem atos coloniais e genocídios. A casca que devia proteger a lembrança passa a proteger a ação. E aí não estamos mais elaborando o passado: estamos nos escondendo dentro dele.


Não escrevo isso para dizer que ninguém pode sofrer duas vezes, dos dois lados do fuzil. Escrevo para dizer que sofrer não é a mesma coisa que ter razão, e que confundir as duas coisas é, talvez, a forma mais eficiente de fazer o passado calar justamente quando ele deveria falar mais alto. Talvez seja esse o meio-termo que este módulo me ensinou a procurar: nem o silêncio da minha mãe, que protege, mas também apaga, nem a monumentalização e sacralização exagerada, que expõe, mas engessa. Só o cuidado de continuar perguntando, com toda a coragem que isso exige.


Ainda não voltei a perguntar à minha mãe sobre meu avô. Mas sei que um dia vou perguntar de novo, com mais delicadeza e mais firmeza ao mesmo tempo, porque entendi, enfim, que lembrar é também uma forma de amar quem já não pode mais contar a própria história. E, ainda que o mundo insista em nos mostrar tanta escuridão nas guerras de hoje, nos genocídios de hoje, nas cascas de hoje, apesar disso, resolvi escolher acreditar, mesmo que de maneira teimosa, que a vida é bela!


Samuel Sol Santos


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