top of page

Portas abertas

  • petfacomufjf
  • 10 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Por: Gustavo Vieira

Eu vinha evitando falar com ela há um tempo. Estava deitado no sofá quando ouvi o portão abrindo. Desanimado, tinha baixado um filme de terror para assistir. Era uma tarde quente de março; o dia inteiro era de um abafamento úmido. As nuvens iam pesando cada vez mais conforme o tempo passava, até uma chuva pesada desabar ao anoitecer. Todos os dias, da mesma maneira. O filme chegou a rodar alguns segundos antes de pausá-lo. Tive que pausar. Devia estar mal vestido ainda quando ouvi os passos dela de chinelo, descendo os degraus frios até a porta da frente. Vesti meu velho calção vermelho e sentei na beira do sofá, aguardando, estático. “Gustavo”, ela chamou. Respondi e falei que podia abrir a porta. Coloquei o controle de volta à mão para fingir casualidade. Opa, tudo bem? ‘Tava vendo um filme. Não dá medo não, é mais engraçado do que qualquer coisa. “Tá sozinho em casa”, ela perguntou, olhando em volta. Sim, estava sozinho. “E seu pai foi viajar” – Foi, foi viajar. Passava a maioria dos dias sozinho nessa época. Tinha acabado de formar no ensino médio e já tinha passado pelos vestibulares. Pretendia cursar Jornalismo em Juiz de Fora, se tudo corresse como planejado. Era meu período sabático.


Pelo suspiro de alívio dela, deu para perceber que o assunto era pesado, e ela tentou me tranquilizar. Me deixou mais nervoso ainda avisando que não era para eu me assustar. A verdade é que, quando ela descia, eu já sabia do que ela ia falar. Há uns anos atrás, antes da Pandemia de Covid-19, antes de cortar todo o meu convívio social, eu estava namorando. Tomei essa decisão no primeiro ano do Ensino Médio, depois de conhecer um garoto bonito. Convivi com todos os demônios daquela época – os quais, aparentemente, para minha insatisfação, eu ainda não havia derrotado. Ela me perguntou se eu sabia do que ela tinha vindo falar. Apenas assenti que sim, com um sorriso sem graça de nervoso. Ela não precisava falar nada. 


Por isso, quando ela fez menção de simplesmente abordar esse assunto caro eu já senti os sintomas conhecidos – as mãos frias e suadas, agarradas na almofada quente do sofá. Sentia o coração palpitando no peito e na ponta dos dedos, ao mesmo tempo. Por favor, esquece isso. Não tem necessidade. E não envolve o meu pai. Por favor, eu pensei. Mas apenas assenti e, com a respiração vacilante, esperei ela continuar.


Ela ficou alguns minutos divagando sobre boatos, sobre ser avistado na rua, sobre amigos próximos em quem, dali em diante, não poderia mais confiar. Enquanto isso, minha mente não estava ali, em suas palavras. Eu já sabia o que ia acontecer, independentemente de quão cautelosa era a forma com a qual ela tentava abordar essa conversa. Sim, eu namorei com aquele garoto. Sim, escondi verdades, contei mentiras. Nada que eu já não soubesse, nada com o que eu já não tivesse brigado por conta própria. Já tinha passado por aquilo outras vezes; toda tia que quer “apenas o seu bem”, alguns conhecidos diziam que estavam ali para quando precisasse, mas não conseguiam disfarçar minimamente o desconforto cada vez que o assunto surgia. Sim, eu já sei. Pode voltar pra sua vida agora.


Encarava o rosto congelado da atriz na televisão, que esperava eu dar o play novamente e seguir com a minha tarde monótona. “Eu tive um irmão”, foi o que me fez sair do transe. Dessa eu não sabia, mas legal, agora ela tem uma história para complementar a lição de moral. “Ele era muito triste, viveu uma vida infeliz”, ela dizia para mim. Do que ela quer me convencer? Que argumentos são esses, para vir de repente interromper a minha paz com alguma solução que vai revolucionar minha vida?, eu pensava. Elaborava contra-argumentos, calculava as respostas que eu nem tinha coragem de dar; planejava refazer essa conversa mais tarde no banho, para poder interrogá-la de volta com mais calma: a gente nem tem intimidade, você convive comigo há muito tempo, mas você nem me conhece de verdade. Tentava não seguir a tendência de absorver o que ela dizia; buscava me blindar, como se tivesse ativado o modo silencioso do meu cérebro; a parte que costuma internalizar esses conflitos e abraçá-los como se fossem meus.


E, me deixando levar por esse fluxo quase venenoso que, de qualquer maneira, já estava impregnando a minha mente, ela segurou a minha mão fincada na costura gasta do sofá e disse: não faz com você o que ele fez com a vida dele. Ele viveu triste porque viveu escondido. Meus dedos cederam, deixei ela segurá-los em sua mão calosa, que se sobrepôs ao redor do meu pulso, me aquecendo de uma maneira inegavelmente materna. Ela continuou. “Meu irmão sempre negou o que falavam sobre ele, porque ele sentia medo. Deixou de viver uma vida digna por achar que seria infeliz, mas a tristeza tomou conta dele exatamente por causa disso. Me perdoa por vir dessa maneira, e não ter jeito de falar, mas não liga pro que as pessoas vão falar. Cada um tem suas próprias dores e só a gente sabe como vai lidar com isso, mas aproveita. Aproveita que você vai embora, não vai precisar mais dar satisfação da sua vida, de onde você ‘tá, com quem ‘tá, que horas vai voltar. Aproveita a faculdade, a cidade nova, pra se encontrar lá. Te digo isso porque sei como é a dor de perder alguém pro medo, de um jeito que não dá para recuperar. Você é novo, tem a vida toda pela frente. Aproveita. Eu amo você”. E me abraçou.


Ela soltou minha mão e dispôs o braço sobre meus ombros. Segurei Marina em um abraço breve que pareceu durar minutos. Agradeci e perguntei se ela queria café. Ela disse que estava com a hora apertada, mas que já tinha dito “o que sentia que precisava dizer há muito tempo”. “Nunca é tarde”, eu confirmei. Ela riu, se levantou, deu outro abraço rápido e comentou que não ia atrapalhar mais o meu filme. Abriu a porta e voltou a andar pela escada; ouvi o mesmo barulho do portão, agora se fechando. Mas a porta da frente, ela esqueceu escancarada, deixando um vento frio e leve entrar na sala. Encarei o filme estático; a mim mesmo, e à porta aberta. Deitei. Vi que sol se punha pálido na janela, aquecendo a casa com uma luz suave de fim de tarde. Deixei a porta daquele jeito: aberta, iluminando a sala, ventilando o cômodo, me prometendo brisa.

Posts recentes

Ver tudo
Fácil

Por: Clarisse Benony Fácil. Do dicionário:  que se executa ou obtém sem dificuldade . Quando somos crianças, fácil pode ser andar de bicicleta, escalar uma árvore, se equilibrar na calçada. Pé por pé.

 
 
 
Exposição Póstuma

Por: Samuel Sol Santos Deixo aqui meu testamento público para a posterioridade e minha exposiçãopóstuma.Algumas coisas são muito difíceis de entender. Recentemente venho sendoatormentado por uma enfer

 
 
 
Longlegs: o frankenstein do gênero terror

Por: Carlos Manuel Constantino de Bastos Neto O filme Longlegs (2024), dirigido por Oz Perkins, foi extremamente antecipado por fãs de filme de terror durante o ano passado após a produtora e distribu

 
 
 

Comentários


2026 PET-FACOM - UFJF
  • Instagram
  • Facebook
  • X
  • Youtube
bottom of page