Exposição Póstuma
- petfacomufjf
- 20 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Por: Samuel Sol Santos
Deixo aqui meu testamento público para a posterioridade e minha exposiçãopóstuma.Algumas coisas são muito difíceis de entender. Recentemente venho sendoatormentado por uma enfermidade, uma daquelas que faz com que nada na suavida além dela tenha importância. Venho lidando da maneira que posso. Osmédicos me disseram que nunca antes tinham visto um caso clínico como esse,disseram que nenhum medicamento existente teria efeito direto para me fazermelhor.Me desesperei ao ouvir a notícia. Sou muito supersticioso e, ultimamente, venhosurfando em uma maré de eventos ruins. Há alguns meses, fiz uma visita a umacartomante de minha cidade. Estava me sentindo perdido e em busca deaconselhamento, perguntei qual caminho espiritual eu devia seguir.Vi uma expressão de espanto no rosto da senhora ao revelar minha carta:— A carta da morte. Seu futuro próximo conterá muitas provações e turbulências.No momento não dei muita atenção para a previsão, pensei comigo que aquilo erasó um truque barato para ganhar dinheiro de pessoas carentes.Meses se passaram e fui percebendo que aquilo que me foi dito estava serealizando: tive meu apartamento invadido duas vezes, perdi parentes próximos eme envolvi em um acidente de Jet ski onde quebrei meu fêmur, tudo isso emmenos de três meses.Agora, com esta enfermidade, passei a ter uma perspectiva diferente das coisas.Tenho refletido sobre como sou a pessoa mais velha viva da minha família; issosignifica que na grande roda do tempo eu sou a próxima pessoa a passar pelogrande filtro do cosmos: a morte.Ponderar sobre a mortalidade, ironicamente, me faz esperançoso em relação àvida. Saber que minha estadia neste universo tem data de expiração me fazaproveitar um pouco mais os momentos comuns. É quase como se a enfermidadetivesse me libertado dos preceitos comuns nos quais eu vivi toda minha vida.É pensar que agora finalmente poderei viver experenciando a realidade de maneirapura, como ela realmente é. Irei sentir o sol da manhã reluzindo na minha pelecomo se fosse a última vez, a brisa da tarde, o frio da noite, o ar úmido presente naencosta da praia. São todas sensações que eu não tirei o meu tempo paraapreciar.Como contador, minha vida consiste em ficar oito horas sentado em um escritóriopor dia observando planilhas do Excel e verificando se estava tudo nos conformesdos padrões burocráticos da empresa. Meu maior momento de felicidade era ointervalo do café, entre as quatro e quatro e quinze da tarde. Eu tinhaoportunidade de viver um pouco fora do meu cubículo, interagir com meuscolegas, apesar de a maioria deles só se preocupar em falar sobre a própriaesposa e seus filhos. Sendo um homem de quarenta e três anos, esse tipo deconversa não só me entediava, como me fazia questionar se um dia poderia teraquilo para mim mesmo.Pensando retrospectivamente, os momentos mais singulares dos meus 20 anostrabalhando no meio corporativo foram as ocasiões que eu passava com minhacolega de trabalho Amanda. Éramos próximos e tínhamos o costume de sair parabeber todas as quintas-feiras. Trocávamos risadas e lágrimas, dependendo dasituação. Uma verdadeira lástima: ela foi transferida para a sede corporativa noAcre e nunca mais a vi.Odeio admitir, mas essa é a verdadeira fonte de minha enfermidade: a minhaquerida Amanda. Sofro do pior dos males e mais amargo dos venenos.A experiência de estar apaixonado.

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