Longlegs: o frankenstein do gênero terror

Por: Carlos Manuel Constantino de Bastos Neto

O filme Longlegs (2024), dirigido por Oz Perkins, foi extremamente antecipado por fãs de filme de terror durante o ano passado após a produtora e distribuidora independente Neon lançar diversos materiais publicitários criativos e interativos, como a disponibilização de um número de telefone onde qualquer um poderia interagir com a voz do serial killer fictício Longlegs, antagonista da obra, e a divulgação de mensagens codificadas pelo assassino no jornal The Seattle Times. Tais ações geraram um engajamento inesperado, forte e orgânico em redes sociais como Tik Tok e X (antigo Twitter), criando uma grande expectativa nos usuários após alguns críticos qualificarem o longa como um “Silencio dos Inocentes moderno” e o diretor admitir que teve como inspiração alguns filmes como Se7en (1995), Zodíaco (2007), e Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992) para a ambientação de seu filme.

A escalação de Nicolas Cage para interpretar o assassino Longlegs também corroborou para o grande sucesso de bilheteria que o filme se tornou, após ter arrecadado mais de US$100 milhões e se tornar o filme independente mais lucrativo de 2024. A aparência final do personagem não foi exibida em nenhum dos trailers ou produtos promocionais divulgados pela distribuidora, aumentando a expectativa que o público já havia criado em cima do que poderia ser o melhor filme de terror do ano.

A película acompanha a protagonista Lee Harker, uma agente do FBI, em sua investigação em um caso onde diversas famílias, sem qualquer relação umas com as outras, foram brutalmente assassinadas em uma determinada região dos Estados Unidos. O curioso é que o pai da família sempre é o aparente responsável pelo ato, porém estes cometem suicidio logo em seguida. Em todas as cenas dos crimes foram encontradas cartas codificadas assinadas por um sujeito autodenominado como “Longlegs”. A Agente Lee é chamada para o caso por ser conhecida pelo FBI como uma detetive “extremamente sensitiva” após ter passado por alguns testes de habilidades psíquicas onde a personagem provou ser capaz de acertar muitos jogos de adivinhação com base em nada mais que sua intuição.

Durante o primeiro ato do filme, a tensão, o bizarro e o mistério são construídos de forma impecável através do jogo de câmera, seus movimentos suaves, lentos e tensos e a frequente utilização de planos que utilizam a arquitetura e outros elementos presentes na cenografia para enclausurar os personagens dentro do quadro. A iluminação e a fotografia trabalham a partir da variação entre quadros com presença de longas sombras projetadas a partir de luzes fracas e amareladas em cômodos fechados. Além disso, o longa conta com diversos planos gerais em ambientes externos com uma exposição maior de luz e cores mais vivas e claras, indicando que o elemento de perigo no filme viria sempre de dentro dos lares dos personagens. Unida a estes elementos, a atuação fria, impessoal e pouco reveladora de Maika Monroe como Lee Harker funciona de maneira única, ao criar uma esfera desconfortável e alarmante para o espectador durante o primeiro ato.

Essa aura construída ao redor da narrativa começa a se desfazer no decorrer dos próximos atos, a intuição intrínseca à personagem de Lee é utilizada pelo roteiro de maneira previsível e rápida para levar a investigação e o enredo de um ponto a outro de maneira rasa através de curtas sequências que mostram a protagonista identificando padrões e desvendando os códigos deixados por “Longlegs”. Tais sequências parecem existir apenas como referências insatisfatórias ao thriller investigativo Zodíaco (2007), por serem tratadas apenas como uma tarefa a ser cumprida para que o resto da história possa ter andamento. O caráter intuitivo da personagem deixa de ter qualquer função a partir desse momento da história, dando a impressão que este traço de sua personalidade foi apenas um recurso simplista que o roteiro adotou para satisfazer uma necessidade da narrativa.

Conforme a protagonista descobre gradualmente que possui uma conexão mais profunda com Longlegs do que ela poderia imaginar ou se lembrar, o filme, também de forma gradual, tenta mudar seu tom de thriller investigativo para terror sobrenatural, mas as referências mal aproveitadas de um gênero e os recursos narrativos mal absorvidos de outro só afundam e deflagram ainda mais a crise de personalidade da obra.

A ambientação do filme continua perdendo sua força quando o roteiro apela para alguns elementos (como complicações nas relações maternas, bonecas possuídas e freiras demoníacas) que já foram utilizados e repetidos à exaustão por alguns filmes de terror modernos como Hereditário (2018), A Freira (2018) e Annabelle (2014). O longa também faz referência, mesmo que de maneira diluída, a relação entre Clarice Starling e Hannibal Lecter do filme Silêncio dos Inocentes (1991), ao tentar criar uma relação parecida de proximidade e cumplicidade entre Lee e Longlegs em meio a uma sequência que remonta às icônicas cenas onde Clarice interroga o criminoso para obter sua ajuda em um caso investigativo.

Embora Nicolas Cage faça uma excelente interpretação de uma entidade demoníaca cheia de trejeitos bizarros e inquietantes, suas poucas cenas dentro do contexto do filme parecem estar unicamente a serviço de abalar as expectativas do público, tornando suas cenas com a protagonista inquietantes, porém igualmente artificiais.

É apenas na sequência final do terceiro ato que ocorre a revelação da força-motriz responsável por todos aqueles crimes e o consequente desfecho sangrento da obra. O trabalho minucioso feito em todas as esferas da produção para garantir que nenhum elemento presente nos quadros existisse por um acaso fica ainda mais evidente nessa parte do longa. Apesar de ser o ápice da experiência visual e estética do filme, o peso emocional dessas cenas já não são tão impactantes, devido à falha que o longa cometeu ao não sustentar os inúmeros clichês atuais do gênero do terror que foram empregados no decorrer da história, em uma clara tentativa de subvertê-los para surpreender e agradar os fãs da categoria, mas que na verdade funcionaram apenas para que o sentimento de interesse e envolvimento do público com a trama fosse perdida.

Toda a esfera tensa, estranha e perturbadora criada milimetricamente pela produção técnica e a direção ao longo de todo o filme é lentamente defasada com todos esses caminhos fáceis, clichês modernos e tentativas de simular tropos famosos de filmes clássicos de terror e thrillers das quais o roteiro se submeteu, e a notável qualidade técnica do filme só torna esses quesitos ainda mais perceptíveis.

Em suma, Longlegs é um filme que se levou a sério demais, teve uma excelente campanha de marketing e um retorno financeiro muito além do esperado, mas deixou a desejar quanto ao conteúdo que prometeu.

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