Por: Letícia de Souza Lapa
Todos nós esperamos por algo. Seja pela resposta do chefe dizendo que é possível tirar folga para visitar a família, seja pelo resultado de um exame – em que o tempo passa lentamente – ou pela esperança de que um tratamento faça efeito.
Nessa perspectiva, esperar está para nós como o fogo está para a madeira: a queima é lenta. O esperar quase se materializa como um embrulho apertado no coração, você consegue sentir a sensação de estar sendo lentamente sufocado por dentro, a ponto de causar náuseas. É quase como se a liberdade fosse cessada quando se espera por algo importante. Nada mais importa. São raros os momentos em que se consegue tirar o assunto da cabeça. E, quando ele volta, vem como um mini-infarto. O bom humor desaparece novamente, e você se lembra de que ainda precisa esperar.
Esperar é sempre lamurioso? E quando se espera pelo primeiro encontro com um possível amor? Apesar de ainda incômodo, ainda há uma beleza. Uma beleza por ansiar com o coração aberto, ao planejar as roupas, o local do encontro, o que dizer e o que não dizer. São tantos cenários possíveis que podem ocupar a mente por dias. Será que o fator “paixão” ameniza o tormento da espera?
Em 1 Coríntios 13:7 está escrito: “O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” Então, seria preciso amar para suportar esperar? É possível pensar que sim, e não se trata necessariamente de um amor romântico, mas talvez de um amor à vida.
Quando estamos “de bem com a vida”, mesmo esperando o ônibus, é possível notar belezas no cotidiano. Como ao observar uma menina pequena empurrando um carrinho de feira com o avô pela manhã. A cada cinco passos que ela dá, o carrinho perde a reta e começa a ir em direção à rua. O avô, então, o reposiciona. A neta dá mais cinco passos, e a situação se repete. Aliás, isso acontece mais duas vezes só no tempo em que você observa.
Um pequeno sorriso se faz presente no rosto do observador, invejando a paciência do mais velho e a inocência da mais nova. Eles dobram a esquina e somem de vista. O ônibus chega. Essa poesia cotidiana embelezou a espera. Mas isso só aconteceu porque o observador decidiu estar aberto a ela. Obviamente, continua sendo horrível esperar por uma boa notícia em um cenário terrível. Mas, se não houver esforço para “ver a vida em rosa”, ela permanecerá no cinza.
Em situações menos cruéis, a melancolia da espera pode ser bela, um tempo para refletir sobre o próprio aguardo, sobre os resultados, sobre si mesmo, sobre as expectativas criadas e as que podem ser realizadas. É preciso enxergar beleza neste ato introspectivo. É preciso amenizar a dor.
E a dor passa, seja com a vida ou com a morte, nada é para sempre. Por isso, com essa certeza, um esforço para deixar que as nossas outras ações também sejam realizadas é necessário. Observar, amar, apoiar, estar, ser.
