Fácil

Por: Clarisse Benony

Fácil. Do dicionário:  que se executa ou obtém sem dificuldade. Quando somos crianças, fácil pode ser andar de bicicleta, escalar uma árvore, se equilibrar na calçada. Pé por pé.  Quando crescemos um pouco mais, fácil pode ser andar de montanha russa, descer de um toboágua, cortar uma onda mesmo sem saber nadar.  Quando mais velhos, percebemos que fácil, de fato, foram todas as fases que vieram antes dessa e que, difícil mesmo, é a realização de que ninguém nos prepara para a chegada desse momento, ou a perda de todos os outros. O eterno difícil.

Desaprendemos a andar de bicicleta, temos medo de escalar uma árvore, atravessamos a rua tão ansiosos que nem pensamos em nos equilibrar pelas calçadas. A montanha russa parece fazer curvas demais, o toboágua muito rápido e o mar muito grande. Em que momento ficamos com tanto medo? Medo de não passar na faculdade, medo de escolher o curso errado, medo do que acontece depois da faculdade, medo do primeiro amor, medo desse amor nunca chegar, medo das escolhas, medo de crescer, medo da morte e, principalmente, da vida.

Quando adultos, descobrimos que fácil mesmo é ter medo, e uma vez acertados por essa percepção, estamos eternamente condenados ao difícil. Uma sina, um destino inevitável que nos amaldiçoa a passar o restante da vida tentando facilitar o difícil. 

Difícil foi, diga-se de passagem, escrever esse texto — dividir, desenrolar, traduzir um pouco dos meus pensamentos. Ficava com essa ideia de que não tinha nada, de fato, pertinente para compartilhar. Mas que mania estranha essa de atribuir finalidade às coisas, por que não só “porque sim”? Temo que essa seja uma dificuldade irrevogável e inerentemente adulta: não ser digno de nada além do útil, nesse espaço não cabe facilidade alguma que amanse essa necessidade do extraordinariamente relevante. E o que de extraordinário teria eu para propor, na bagunça dos meus 20 poucos, além do puramente ordinário?

Pequenos alívios — como o de achar jogado por aí algo que há muito tempo procurava, um pingente ou um suéter perdido. Pequenas felicidades — como a de tomar sol depois de muitos dias frios. Pequenas conquistas — como cozinhar a própria comida e gostar do resultado. Pequenas recompensas — como finalizar um livro arrastado e descobrir que era bom no final. Todas essencialmente ordinárias e fáceis, mas capazes de romper com dias difíceis. As coisas fáceis seguem acontecendo, afinal.

Talvez o eterno difícil seja não se deixar tomar por essa nuvem que vem carregada da pressa que não nos permite perceber a beleza, a leveza e a facilidade que ainda resistem à vida adulta. A pressa de chegar, de conquistar, de ser, de encontrar finalidade — na vida, nesse texto que escrevo. O que fazemos com o tempo que sobra depois de tudo que é feito com pressa?

Certa vez — em ‘Véspera’, de Carla Madeira — li: “Custódia era jovem. Que tivesse, pois, o que os jovens não costumam ter: paciência.” Talvez seja essa a dificuldade do século — desse e de todos os outros que vieram e ainda virão, dos adultos e de todas as idades antes e depois. Mas as facilidades permanecem , aqui e ali, mais sutis e despercebidas, persistem. 

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