Exposição Póstuma

Por: Samuel Sol Santos


Deixo aqui meu testamento público para a posterioridade e minha exposição
póstuma.
Algumas coisas são muito difíceis de entender. Recentemente venho sendo
atormentado por uma enfermidade, uma daquelas que faz com que nada na sua
vida além dela tenha importância. Venho lidando da maneira que posso. Os
médicos me disseram que nunca antes tinham visto um caso clínico como esse,
disseram que nenhum medicamento existente teria efeito direto para me fazer
melhor.
Me desesperei ao ouvir a notícia. Sou muito supersticioso e, ultimamente, venho
surfando em uma maré de eventos ruins. Há alguns meses, fiz uma visita a uma
cartomante de minha cidade. Estava me sentindo perdido e em busca de
aconselhamento, perguntei qual caminho espiritual eu devia seguir.
Vi uma expressão de espanto no rosto da senhora ao revelar minha carta:
— A carta da morte. Seu futuro próximo conterá muitas provações e turbulências.
No momento não dei muita atenção para a previsão, pensei comigo que aquilo era
só um truque barato para ganhar dinheiro de pessoas carentes.
Meses se passaram e fui percebendo que aquilo que me foi dito estava se
realizando: tive meu apartamento invadido duas vezes, perdi parentes próximos e
me envolvi em um acidente de Jet ski onde quebrei meu fêmur, tudo isso em
menos de três meses.
Agora, com esta enfermidade, passei a ter uma perspectiva diferente das coisas.
Tenho refletido sobre como sou a pessoa mais velha viva da minha família; isso
significa que na grande roda do tempo eu sou a próxima pessoa a passar pelo
grande filtro do cosmos: a morte.
Ponderar sobre a mortalidade, ironicamente, me faz esperançoso em relação à
vida. Saber que minha estadia neste universo tem data de expiração me faz
aproveitar um pouco mais os momentos comuns. É quase como se a enfermidade
tivesse me libertado dos preceitos comuns nos quais eu vivi toda minha vida.
É pensar que agora finalmente poderei viver experenciando a realidade de maneira
pura, como ela realmente é. Irei sentir o sol da manhã reluzindo na minha pele
como se fosse a última vez, a brisa da tarde, o frio da noite, o ar úmido presente na
encosta da praia. São todas sensações que eu não tirei o meu tempo para
apreciar.
Como contador, minha vida consiste em ficar oito horas sentado em um escritório
por dia observando planilhas do Excel e verificando se estava tudo nos conformes
dos padrões burocráticos da empresa. Meu maior momento de felicidade era o
intervalo do café, entre as quatro e quatro e quinze da tarde. Eu tinha
oportunidade de viver um pouco fora do meu cubículo, interagir com meus
colegas, apesar de a maioria deles só se preocupar em falar sobre a própria
esposa e seus filhos. Sendo um homem de quarenta e três anos, esse tipo de
conversa não só me entediava, como me fazia questionar se um dia poderia ter
aquilo para mim mesmo.
Pensando retrospectivamente, os momentos mais singulares dos meus 20 anos
trabalhando no meio corporativo foram as ocasiões que eu passava com minha
colega de trabalho Amanda. Éramos próximos e tínhamos o costume de sair para
beber todas as quintas-feiras. Trocávamos risadas e lágrimas, dependendo da
situação. Uma verdadeira lástima: ela foi transferida para a sede corporativa no
Acre e nunca mais a vi.
Odeio admitir, mas essa é a verdadeira fonte de minha enfermidade: a minha
querida Amanda. Sofro do pior dos males e mais amargo dos venenos.
A experiência de estar apaixonado.

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